EURATÓRIA

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Monthly Archives: Junho 2014

Porque a vida não é só política, Europa ou coisas (muito) sérias, escrevi no Observador um texto sobre um assunto sem importância: o futebol. Ou será exactamente o contrário?

Observador: Futebol Portugal Clube. 

 

OS PROFISSIONAIS DO DIÁRIO DE NOTÍCIAS (E DA CONTROLINVESTE)

Muita gente, e muito melhor do que eu, escreveu já sobre o despedimento de 160 profissionais do Diário de Notícias (e de outros meios da Controlinveste).

Por isso também, hesitei fazê-lo. O texto do Pedro Guerreiro, o do Miguel Carvalho (a devida comédia) que me chegou pelo Ricardo Alexandre, e tantos outros, dizem tudo. São pungentes, comoventes, revoltados. São belos e tristes, como todos os textos sobre pessoas escritos por gente inteligente e sensível.

Mas não podia não escrever algumas palavras. A razão principal resulta do facto de eu próprio, durante quase dez anos (não consecutivos) ter escrito naquele jornal. Uma coluna, primeiro, sobre a Europa, e depois sobre tudo, a política, os homens e as mulheres deste país, a vida… Com orgulho, escrevi sempre com orgulho, nem sempre bem, obviamente, talvez mais mal que bem, escrevi num jornal muito antigo, nobre, respeitado. E já agora, de ambas as vezes, recebi o convite da pessoa do Mário Bettencourt Resende, um homem bom, um fantástico profissional, um amigo; com honra, gosto e, já agora, com algum receio de desiludir, pois aquele era também um lugar de alguns dos nossos maiores – aquelas páginas têm peso.

E agora? O que diria o Mário? O que diriam – ou dirão – muitos dessas referências da nossa vida colectiva? É assim? Continuamos a dispensar a única coisa que nos define como povo, como nação, como colectivo, como identidade, como comunidade de origem numa simultânea cumplicidade de destino? Continuamos a tratar as pessoas como se não fossem pessoas?

A que nos condena isso? Não sei, suspeito: à ruptura crescente desses laços identitários.

Li e hesitei. Os silêncios. O pescoço curvado dos colegas. O desemprego no horizonte. O medo. O medo. A hipocrisia amarga e doce, mas necessariamente inevitável, do alívio (desta safei-me), carregada de culpa, de remorso e, uma vez mais, de um crescente temor com o futuro. Se eles são dispensados, porque não eu? O que me segura? O valor, acreditam… mas eles sabem do valor dos outros, conhecem-no, e se apesar disso eles foram…

Li e quase tudo o que se escreveu salienta a dor de quem recebe a chamada (venha ao meu gabinete), a mensagem (favor estar no gabinete..), o recado, ominoso (o director pede-lhe que vá ao gabinete…); justamente, claro. Como num luto, começa agora a fase da rejeição, ainda plena de adrenalina, de projectos grandiosos – juntamo-nos, um projecto novo, ainda sou jovem -, a que se seguirá o tempo da resignação – com algum dinheiro, reservas, subsídios -, e depois o desespero.

Não para todos, espero sinceramente que não para todos; talvez para ninguém? E é então que chegámos ao domínio dos Outros. Que é o nosso. O pior para quem sai é a compaixão de quem fica; ou de quem está de fora. Eles não querem a nossa compaixão, querem a nossa solidariedade; activa, de preferência, concreta, se possível. É isso que significa a palavra comunidade; que cabe na palavra nação; que fazem parte, ambas, da expressão ser humano.

Somos humanos. Safámo-nos. Estamos safos. Eles não. São nossos colegas, nossos amigos, nossos conhecidos. Trabalharam ao nosso lado, lemo-los inúmeras vezes. Vamos estar presentes, vamos dar-lhes a conhecer a nossa solidariedade, vamos partilhar oportunidades, possibilidades, alternativas, contactos, sei lá, vamos partilhar-nos com eles (não é bom português, eu sei).

Só assim estaremos à altura do legado de um diário centenário como o Diário de Notícias, o meu jornal. Por mim, por eles, pelo Mário, temos de nos lembrar que fazemos parte do mesmo grupo:

Somos todos seres humanos.

Marinho e Pinto: está esclarecido o mistério

Marinho e Pinto nos liberais?

Marinho e Pinto

Será o regresso de portugueses ao terceiro maior grupo político do Parlamento Europeu (PE), depois da presença nele dos eleitos pelo PSD entre 1989 e 1996 (ano em que se mudaram “de armas e bagagens”, a meio da legislatura, para o PPE, de onde nunca mais saíram).

 Com esta decisão – árdua e longamente negociada, diga-se de passagem -, começa a desvendar-se um mistério (será?): a natureza ideológica da candidatura de Marinho e Pinto e do Partido da Terra, que encabeçou nas recentes eleições europeias.

Fica desde já a saber-se que Marinho e Pinto é um fervoroso defensor da construção europeia – e isso é uma boa coisa. Leia-se a esse respeito o seguinte trecho do ideário do Partido Liberal Europeu, base do Grupo Político respectivo no PE:

Em 60 anos de integração europeia, a UE ajudou-nos a consolidar a paz, a estabilidade e a prosperidade. A UE promoveu e estendeu a 500 milhões de pessoas as 4 liberdades (…). Queremos que a União jogue um papel de liderança fundamental na resposta aos desafios globais de hoje e de amanhã. 

Marinho e Pinto e o Partido da Terra vinculam-se assim, entre outras coisas, a defender a democracia, o império da lei, os direitos humanos, a tolerância e a solidariedade; uma sociedade aberta, livre e justa; uma Europa próspera; uma Constituição europeia. E vinculam-se, também, a um ideário que é claramente federalista – os liberais sempre o foram.

Marinho e Pinto manteve negociações em simultâneo com o grupo de Os Verdes e os Liberais. No primeiro caso, determinadas posições do agora deputado europeu, como a rejeição da adoção de crianças por casais do mesmo sexo, mereceram reserva; sabe-se que representantes do grupo terão contactado o partido português Os Verdes e o próprio Rui Tavares, que fez parte daquele grupo político europeu depois de ter abandonado o Bloco e consequentemente o grupo da Esquerda Europeia, tendo em vista obter a sua opinião sobre esta adesão.

Certo é que Marinho e Pinto e o seu número dois vão integrar o Grupo da Aliança dos Liberais e Democratas pela Europa. E serão mais dois defensores acérrimos da integração europeia.

 

 

Eu e o Observador

Há algum tempo, fui convidado a participar como cronista nesta nova aventura jornalística – o Observador -, que para mim não passa de um passo mais na busca, que é global, de novos caminhos para os jornais (e para a comunicação social em geral).

Aceitei com gosto, como sempre gosto de aceitar os desafios que são estimulantes, porque de sucesso não garantido à partida. Fui ainda assim alertado, por amigos e conhecidos, para o risco de participar num projecto que (segundo eles e outros, que não são nem amigos nem conhecidos) cheirava a “ultra-liberalismo”.

Confesso que sempre tive dificuldade em lidar com chavões, sobretudo quando têm pouca base científica. Mas, tendo eu um conjunto (espero que sólido) de convicções, ideais e princípios que, em muitos casos, são entre si conflituantes (pois é), não me pareceu que o facto de fazer parte de um desafio, sob todos os outros ângulos, aliciante, fosse contribuir quer para a minha descredibilização quer para abundar no sentido do tal “ultra-liberalismo” que não sei bem o que é. Aceitei, claro.

E estou naturalmente encantado. Até agora, o jornal cumpriu as suas promessas. E, na questão “ideológica” em apreço, permite-me até discordar de opiniões que desafiam as minhas, com total liberdade e frontalidade. Afinal, se “ultra-liberalismo” significar liberdade total para concordar, discordar e debater ideias, então eu sou ultra-liberal.

Mas atenção: só se significar isso. Isto é: quem disser isso de mim, se faz favor, publique pelo menos a frase anterior…

O que está em causa é o nosso futuro.

 

Tempo de decisão: a Inglaterra tem agora de decidir se fica na Europa

O título deste post é a tradução da minha lavra de um editorial do Spiegel On line (de ontem). Passou relativamente despercebido em Portugal, mas é muito relevante e o seu conteúdo não pode (não deveria) deixar de alimentar o debate público sobre o futuro da União Europeia e a vontade de nela permanecer (ou não) de alguns dos seus membros.

E não se diga ser isso que está em causa, mas sim o rumo da União: é que hoje em dia, explicitamente (pela voz de Marine Le Pen e outros vociferantes anti-europeus), o que se trata de pôr em causa é a própria existência da União Europeia. A sua razão de ser, a sua fundamentação e justificação.

Não poderei traduzir o texto todo, mas aqui ficam alguns destaques, seguidos pelo artigo na íntegra em inglês.

“Durante anos, a Inglaterra fez chantagem e gozou com a União Europeia (UE). Chegou a altura do Reino Unido fazer uma escolha: pode seguir as regras ou pode abandonar a UE.

(…) O Reino Unido e a UE são como um casal que se faz mutuamente infeliz, mas que evita fazer qualquer coisa a esse respeito.

(…) Seria uma tragédia se a Inglaterra saísse da UE – uma perda política, económica e cultural.

(…) Contudo, a Grã-Bretanha nunca teve grande apetite pela integração europeia. A perspectiva que prevalece em Londres é que a União devia ser uma gloriosa zona de comércio livre (…)

A Europa tomou em conta as sensibilidades e particularidades inglesas por tempo de mais. Permitiu-se ser vítima de chantagem e fazer de idiota vezes sem conta. Foi paciente ao ponto da auto-negação. Durante décadas, a Inglaterra foi perdoada por cada veto que emitiu, e cada um dos seus desejos especiais foi concedido. (…) Nada disso fez mudar a visão das coisas dos ingleses e o país está mais distante da União do que alguma vez esteve.

Chegou a altura de uma clarificação. (…) Ela pode chegar agora – com a escolha do futuro Presidente da Comissão.

(…) A União não pode deixar-se chantagear pelos ingleses mais três anos e recusar-se a dar ao povo europeu o que lhes foi assegurado antes da eleição – que poderiam usar o seu voto para determinar o próximo Presidente da Comissão. Se a União não cumprir essa promessa, perde toda a credibilidade e aceitação.

A União deverá implementar as convicções da maioria e não as que são aceitáveis para um Estado-membro. A Inglaterra pode decidir como responde a esta situação – se quer alinhar com essa decisão ou se quer abandonar a Europa.

O Reino Unido é sem dúvida importante. Mas a escolha entre uma União mais democrática e a continuação da Inglaterra como membro é clara. A Europa deve escolher a democracia.

O ARTIGO

Decision Time: Britain Must Choose Now If It Will Stay in Europe

A DER SPIEGEL Editorial

For years Britain has blackmailed and made a fool out of the EU. The United Kingdom must finally make a choice: It can play by the rules or it can leave the European Union.

Following last week’s elections for the European Parliament, Europe finds itself at a historical turning point. It faces two questions. The first is that of how seriously the European Union is about its promise to become more democratic. The second is whether Britain can remain a member of the EU.

The extent to which those two questions are inextricably linked became clear last week when Prime Minister David Cameron refused to recognize the results of the European election and nominate winner Jean-Claude Juncker as president of the European Commission, the EU’s executive. Most countries and leaders in the European Council, the powerful body representing EU leaders, had previously agreed to this procedure. It was a significant promise to the people of Europe — they were to be provided with a greater say and they were supposed to be given a sign that their vote counts, that it has concrete effects. But Cameron threw a spanner in the works.

The crisis in European democracy is also the consequence of an unsettled relationship. Both the EU and Britain have perceived their relations as a burden in recent years. People in Brussels suffer under a London that is constantly thwarting European unity, that has slammed the brakes on progress and has doggedly prevented a deepening of relations.

The Tipping Point

In Britain, people suffer under the EU itself. It is a chronic suffering, one without any prospects of relief. During the May 25 European election, the anti-EU UKIP party garnered 27.5 percent of the vote, making it the strongest British party in the new European Parliament. And this, despite the fact that Britain’s other political parties — with the exception of the Liberal Democrats — are about as EU-friendly as Germany’s euroskeptic AFD.

Great Britain and the EU are like a couple that make each other unhappy but shy away from doing anything about it.

To be sure, it would be a tragedy if Britain were to leave the European Union — a political, economic and cultural loss. Indeed, the British are to be credited with much of that which makes the Continent so special today and of which people are so proud. They introduced democracy at a time when absolutism prevailed in Europe. They showed us the advantages of an economic liberalism that, despite all its weaknesses, ultimately transformed Europe into a prosperous Continent. At all times, the British have provided us with cultural enrichment.

However, Great Britain has never had an appetite for European integration. The prevailing perspective in London is that the EU should be a glorified free-trade zone — at best a loose alliance of states, but don’t mention the term political union.

There are selfish and nationalist reasons for this, but they are insufficient for explaining the phenomenon. It isn’t geography — the fact that the country is an island — that makes the United Kingdom an exception. The country also possesses a different political culture. For the British, who have never even drawn up their own constitution and instead rely on a collection of sundry documents to apply rule of law, the EU’s stringent regulations remain alien today. In addition, one must not forget the fact that Britain wants to maintain a special relationship with the United States, one that is also intended to provide a counterweight to the European Union.

Enough Is Enough

Regardless, Europe has taken British sensitivities and particularities into account for long enough. The EU has allowed itself to be blackmailed and made to look like a fool time and again. It was patient to the point of self-denial. For decades England was forgiven for every veto it cast; every special wish was granted. When Margaret Thatcher shouted in 1984, “I want my money back,” the EU granted her the “British rebate,” which the country still profits from today. None of this did anything to change the Brits’ view of things, and the country is more distant from the EU today than it has ever been.

The time has now come for a clarification. And it’s even possible the European Union will have to decide what is most important: a more democratic Europe or having Britain remain a member. This clarification must come now — with the appointment of the future European Commission president. It’s a decision which cannot wait until 2017, the year by which David Cameron has said he will hold a referendum on Britain’s EU membership.

The EU cannot allow itself to be blackmailed by the British for another three years and refuse to give the people of Europe what was assured to them before the election — that they could use their vote to determine the next president of the European Commission. If the EU doesn’t fulfill that promise, it will lose all credibility and acceptance.

This decision is due to be made at the next EU summit in June. At the summit, EU leaders must fulfill their promise and nominate Jean-Claude Juncker, even if that creates even greater difficulties for Cameron back home and even if he threatens to withdraw his country from the EU. The EU should implement the convictions of a majority and not those that are acceptable to one member state. Britain can then decide how it wants to respond to this new situation in Europe — whether it wants to go along with it or if it wants to leave.

Britain is important to be sure. But the choice between a more democratic EU and Britain’s continued membership is clear. Europe must choose democracy.